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| Melody |
Já faz alguns dias que me tranquei na minha torre de vidro e preguei um aviso do lado de fora da porta: “mantenha-se afastado”, na verdade a placa não é para ninguém, serve simplesmente para que eu possa realmente achar que ninguém se aproxima por escolha minha e não o oposto. Tem sido dias turbulentos como uma tempestade de pensamentos aleatórios sobre quais serão meus planos para um futuro próximo, algo precisa mudar em minha vida, e ainda não descobri exatamente como! É fácil ter medo de mudanças, mas posso garantir que o meu maior medo é mudar-me e continuar tudo igual, porque se há algo mais assustador que a mudança é a estagnação, a inércia.
Apesar disso, apesar de precisar realmente tomar as decisões certas e de todo o peso da responsabilidade de minha própria vida pesando em meus ombros tenho procurado, para minha própria saúde física e metal, concentrar meus pensamentos em coisas pequenas e sem importância de maneira a preencher meu tempo ocioso com algo menos danoso.
Assim resolvi “arrumar” meu orkut, mas logo me deparei com um tópico impossível, um clássico paradoxo de todos os pensadores e de qualquer pessoa com o mínimo de espírito de auto-reflexão (tipo eu): “Quem sou eu”.
As pessoas pederiam escrever varias paginas e discutir infindáveis horas sobre quem sou eu, e quem somos todos nós, mas muito provavelmente seria maçante e extremamente irrelevante, por isso vou me restringir e viajar o mínimo possível!
Mas enfim quem sou eu? Eu sou uma contradição. Sou uma cabeça em um mar de cabeças onde todas falam ao mesmo tempo e ninguém se ouve. Sou um número, um gênero uma estatística, sou um mero devaneio do destino, eu sou pouco muito pouco. Eu sou um peso nos ombros cansados de minha mãe, sou um alivio a um amigo solitário em um domingo a tarde.
Eu sou aquela pessoa que sorri quando quer chorar, e chora quando está feliz. Que diz “vai, pode ir” quando quer dizer ”por favor, fica”, e que diz “fica mais um pouco” quando quer dizer “me deixa em paz, vai logo”. Eu sou daquelas que ri da seriedade das pessoas e se entristece com o entretenimento popular barato.
Eu sou aquela garotinha que sorri quando está dançando, até mesmo quando não tem ninguém olhando. Eu sou uma dançarina, uma forrozeira, em frente ao espelho, cantora de jazz, blues e MPB no chuveiro. Eu sou, ou melhor, eu não sou o tipo de mulher que se ama. Assim, sou a mulher que se usa e joga fora e que sofre calada e conformada. Sou descartável e substituível.
Mas quem sou eu?
Eu sou uma sobreposição de máscaras sociais, uma contradição.
Quem sou eu?
Prazer meu nome é Melody, tenho 24 anos, sou Designer de Moda. “Eu sou a amiga da dona da festa”, “eu sou a madrinha do Pedro Cirilo e tia do Caetano”, “Eu sou a filha da Beatrizinha da Inácia”, “Sim eu sou a filha do Frei Gil”, “sou a moradora do apartamento de baixo”, “eu sou a Lilavathy que escreve este blog”, “ah não, não se preocupa comigo não, eu só estou acompanhando, não sou ninguém não”.
Quem sou eu? Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem ACHA que sabe!

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