quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Terça-Feira


     Com certeza meu dia preferido da semana é a terça-feira, a maioria das pessoas prefere a sexta ou o sábado, mais geralmente nós idealizamos o fim de semana, esperamos ansiosos porem quando chove ou estamos sem dinheiro, ou qualquer coisa do tipo, nos frustramos. Ninguém espera nada de especial em uma terça-feira, qualquer coisa boa que possa acontecer nos surpreende, tudo pode acontecer, inclusive nada. 
    Quando eu era mais nova costumava assistir ao seriado de tv friends com meu irmão mais velho Gr nas terças-feiras, adorávamos aquele seriado, meu irmão fez ate uma música “eu adoro terça-feira, terça feira é tão legal, terça-feira passa friends e friends é animal”. Mas o que eu gostava mesmo era ter ele ao meu lado, compartilhar aquele momento com ele, independentemente do que estivesse passando na tv.
     Durante toda minha infância, puberdade e parte da minha adolescência meu irmão foi a figura mais importante na minha vida, meu modelo a ser seguido, como uma pessoa que eu admirava e gostaria de ser, muito criativo, espontâneo, com um censo crítico desenvolvido, inteligente ,sensível e principalmente porque ele estava lá ,estava sempre lá. Mas depois de alguns anos ele foi embora, e ficou muito longe o mais longe que se pode estar de alguém, aquela distancia que se cria e mesmo estando presente cara a cara com a pessoa se está longe demais para percebe-la ali.    
    Meu irmão foi a minha primeira e maior rejeição. No começo me sentia triste, muito triste o tempo todo sentindo a falta dele, depois passei a sentir raiva, senti muita raiva dele por ter me deixado para trás junto com todo o resto das coisas que ele não queria na vida dele, costumava dizer que ele botou tudo em um pacote só, ele me botou no mesmo pacote das magoas e decepções que o fizeram ir embora ,tudo em um pacote só. Sentia raiva porque ele nunca estava lá, e os poucos momentos em que ele se fazia presente, não era mais ele, reclamava o tempo todo de tudo, seco e indiferente sempre se mantendo na superfície de nossas vidas, ficava com raiva porque ele sempre foi o filho preferido da minha mãe e ele a deixou para trás, tudo em um pacote só, e quando ele ia embora eu tinha que vê-la chorando escondida em um canto por que eu sei que ela se sentia da maneira que eu.
      Senti raiva até o dia em que minha terapeuta me disse uma coisa que mudou a maneira de olhar para ele, ela me disse “você não pode colocar nas costas dele o peso infinito de sua idealização, o Gr que você amava morreu” sim ele morreu, “ e existe um novo Gr que está ai,e o que você precisa saber é se tem espaço na sua vida para deixar o Gr antigo para trás e amar esse novo, você esta disposta a aceitar e amar a pessoa que ele se tornou, ou vai passar a vida toda julgando ele por não ser quem você gostaria que ele fosse?”
     Devo admitir que demorei mais de um ano para de fato entender o que ela havia me dito, a ultima vez que vi meu irmão  não senti mais raiva. Estávamos conversando sobre coisas do passado de nossa infância, simplesmente relembrando histórias e ele me disse, “vocês só sabem falar de coisas do passado não tem nada novo para falar não?”
Minha vontade era esbravejar, gritar em alto e bom som “ porque o passado é tudo que nos resta de você que seja real, que seja verdadeiro, o que você esperava? Uma conversa sobre “amenidades” sobre assuntos banais e qualquer coisa que nos mantivesse a margem de sua vida Gr?”
      Foi então que eu percebi, eu estava errada, o presente é tudo que temos porque eu não conheço mais meu irmão e nunca dei chance a ele para me conhecer também, porque o Gr que me conheceu está morto, e é assim que sinto a falta dele como uma pessoa querida que faleceu a muitos anos e está na hora de deixá-lo descansar em paz, para que eu possa finalmente amar e aceitar o Gr que está vivendo logo ali, no mundo real.
     Mais sempre vou sentir sua falta e guardar um pensamento carinhoso a você toda terça-feira, quando algo bom me acontece.

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